NO LEITO DO RIO ARNO


O ofício de fazer bolsas, a pelletteria, tem origem no final do séc. XIV, mas a tradição de trabalhar com o couro é muito mais antiga e deixou registros na história do mundo todo. Desde o início da humanidade a pele do animal caçado pelo homem virava agasalho, e no antigo Egito pequenos objetos feitos de couro como chicotes e instrumentos musicais já faziam parte do dia a dia. Na Grécia antiga, as roupas para os pilotos eram feitas de couro, assim como na antiga Roma tiras do material eram usadas na confecção de luvas para lutar. O termo francês maroquinerie, que se refere à produção de artefatos, vem da palavra Marrocos, país onde os trabalhos com couro eram sofisticados e as peles de cabras e bodes curtidas com qualidade.

Foram os próprios marroquinos, através da Andaluzia, a transmitir as técnicas de trabalho com couro aos europeus. Técnicas essas responsáveis pela criação de novas industrias no Sul da Europa no início do séc. XII, que revolucionaram a economia e que não pararam de se desenvolver. Cintos, coldres, armaduras, capacetes, selas para cavalos, capas de livros, moveis, sapatos... tudo isso até as primeiras bolsas e porta moedas.

Em Florença, na Itália, foi no período do Renascimento que o trabalho com o couro começou a receber a sua devida importância. As Artes de Firenze, corporações de artes e ofícios que reuniam trabalhadores da mesma categoria profissional, começaram e se constituir e a Arte dei Cuoiai e Galigai – artesãos que se ocupavam da curtição e dos trabalhos com o couro – foi inserida entre as artes menores.

A curtição, processo que permite à pele do animal ser trabalhada, era feita nas montanhas e nos vales da Ponte Vecchio, onde as peles eram postas de molho no Rio Arno. Por culpa dos fortes odores que eram exalados, essa atividade foi levada para as regiões de Santa Croce, onde ainda hoje existem as Via dele Conce e Via dei Conciatori – Rua dos Curtumes e Rua dos Curtidores.

A tradição florentina da pelletteria alcançou nos séculos XV e XVI os mais elevados padrões profissionais, quando a Arte dos Curtidores e Galigares foi unida à Arte dos Sapateiros e à Arte dos Correggiai, fabricantes de cinto, formando assim a Universidade dos Mestres de Couro. Os estatutos desta Universidade tinham regulamentos muito precisos, e deram origem à diversas regras sobre o uso dos materiais, ferramentas e técnicas de costura, garantindo assim o maximo da qualidade durante a produção.

Mesmo com o passar dos anos, foram conservadas e cultivadas as mesmas regras e técnicas para a produção de objetos em couro. Não a caso, das 400.000 pequenas e medias empresas de pelletteria concentradas na Toscana, muitas mantiveram as dimensões, os segredos e o modus operandi dos pequenos laboratórios os quais ao cliente era garantida a unicidade do produto.

Famosas grifes de luxo garantiram a excelência dos próprios produtos graças ao relacionamento estreito de colaboração com tais laboratórios. Hoje em dia, essa mesma região é considerada o distrito real do luxo, o polo toscano da pelletteria de alta qualidade, onde grandes casas de moda fundadas na região como Gucci, Ferragamo ou The Bridge continuam produzindo com as mesmas técnicas tradicionais, e onde empresas de fora como Dolce & Gabbana, LVMH, Mariella Burani e Prada escolheram como ponto estratégico para se distinguir na fabricação de bolsas pelas habilidades artesanais.

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Mastri é um ateliê-escola de produção artesanal e modelagem de acessórios em couro